Crônicas Anteriores

Imprimir texto completo Imprimir o texto completo

CIDADÃO COMUM (2):

ESTE SER (CON) FU(N) DIDO

Por Genival Ferreira*

 Refletir sobre cidadania é uma das coisas que mais me apraz fazer, pois é muito apurado o meu sentimento de cidadão na ânsia por justiça. Este sentimento apodera-se constantemente de nós brasileiros devido às “pequenas injustiças” do dia a dia nacional, como se refletindo pudéssemos promover a justiça e a equalização dos legítimos interesses do cidadão comum.

 No antigo pátio de veículos do Aeroporto Internacional dos Guararapes Gilberto Freyre, sempre utilizava uma das duas vagas destinadas à Imprensa, quando de idas rápidas ao Aeroporto para checar um PTA ou emitir um bilhete de passagem aéreo.

Num desses dias deparei-me com um Policial de Trânsito “extremamente por dentro da Legalidade” segundo ele próprio, mas infelizmente (ou felizmente?) EXTREMAMENTE ESTÚPIDO, do ponto de vista da aplicabilidade das normas, segundo meu pensamento.

Ao estacionar e travar as portas do meu carro, o TODO-PODEROSO POLICIAL abordou-me dizendo que eu não podia estacionar naquela vaga, ao que eu me identifiquei com minha carteira de Radialista;  e Ele insistiu que o carro não era da Imprensa.

Eu contra argumentei dizendo-lhes que o adesivo que meu carro dispunha com a Marca das Armas Nacionais da IMPRENSA era do Sindicato dos Radialistas de Pernambuco, do qual me orgulhava de pertencer.

Ele insistiu que “não valia”, sugerindo que o meu carro tinha que ser da Rádio tal ou qual. FDP! (Foi Demais Pernambuco!). Imagine os Radialistas de Pernambuco, cada um com um veículo de suas rádios, que maravilha! Salve os Radialistas Pernambucanos! Acho que nem nos States!

Eu sugeri que estava ligado à Rádio Universitária AM da UFPE e que nem carro para reportagens nós dispúnhamos, quanto mais para seu Diretor buscar passagens no Aeroporto! Ele não aceitava! Mas mesmo assim “deixava” que eu fosse apanhar minha passagem no Balcão da Varig, desde que eu voltasse rápido! Que bonzinho! Pensei irônico e p... da vida.

Fui retirar meu bilhete e na volta o abordei ironicamente, desejando que ele me agredisse fisicamente para que eu pudesse fazer um rebú na mídia:

- “Sargento, por favor, gostaria de lhe pedir uma ajuda!”

- “Diga senhor!”, propôs ele.

- “O senhor acabou de dizer que não posso estacionar na vaga destinada literalmente à Imprensa, embora eu tenha lhe provado que sou da Imprensa, da Rádio Universitária AM da UFPE, gostaria que me desse uma declaração escrita do fato, para eu reclamar no meu Sindicato dos Radialistas de Pernambuco!” Pense no ar que o sujeito pegou!

- “Vá pedir à Infraero!” exclamou.

A essa altura outras pessoas se agruparam em torno do nosso papo, imagino que o fato de estar debatendo mais acaloradamente e ainda por cima de paletó e gravata chamou atenção dos passantes mais curiosos e confesso que era tudo que eu desejava naquele momento, pois o meu sonho maior era ser agredido fisicamente – como admiti acima - por aquele estúpido sargentinho de meia tijela.

- “Mas a Infraero não está me proibindo de estacionar, pois a placa diz IMPRENSA (2 VAGAS). O senhor é que disse que EU NÃO POSSO ESTACIONAR! Então o senhor é que tem que me dar a Declaração para que eu possa exercer meus direitos de cidadão junto ao meu Sindicato!” e me voltando a todos quantos nos rodeavam acrescentei: “Vejam senhores como é difícil trabalhar honestamente no Brasil! O Policial não deixa eu exercer minha função de Radialista, pois não posso utilizar uma vaga a mim destinada LEGALMENTE. A quem devo reclamar?”

O Guarda ficou P... da vida, principalmente quando olhava os rostos dos cidadãos que nos cercavam e via que todos davam razão a mim! Eu não sei por que ele não me agrediu! Que pena, pois se isso tivesse ocorrido ele teria se arrependido de ter abordado tão estupidamente um Matuto de Sertânia!

Após uma breve troca adicional de palavras entre nós dois, fiquei encantado com os transeuntes que a tudo assistiram e ficaram do meu lado. Passei mais de meia hora discursando particularmente sobre cidadania para aquela gente que momentaneamente me fizeram de Ídolo e nunca recebi multa alguma desse episódio.

Uns diziam “esses p.... pensam que podem tratar todo mundo com descaso...” outros perguntaram: “o senhor é de Sertânia mesmo?” E mais: “É isso aí professor, o senhor é f......!”; “Parabéns você botou prá lascar!” .E outro concluiu, observando o boton do SPORT no meu paletó: “Esse Cabra é SPORT mesmo!” “Pelo Sport Tudo!” Emendou outro.

Que dia maravilhoso! Salve a DIGNIDADE HUMANA! Viva a indignação de brasileiros que de vez em quando aflora e promove mesmo que momentaneamente a JUSTIÇA! Salve a Lógica e a Justiça!

 Professor da Universidade Federal de Roraima
Presidente da Academia de Ciências Contábeis de Pernambuco
Radialista